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sábado, 3 de março de 2012

“ESTÓRIA DE JOÃO JOANA”: ORQUESTRA SINFÔNICA DO TEATRO NACIONAL REALIZA CONCERTO DE CORDEL EM HOMENAGEM AO DIA INTERNACIONAL DA MULHER



Atenção, abrir em uma nova janela. 
A estreia da programação artística da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro em 2012 promete emocionar quem for à Sala Villa-Lobos nos dias seis, sete e oito de março.
Sob a regência do maestro Cláudio Cohen, cerca de oitenta músicos vão misturar o popular e o clássico num concerto que contará a “Estória de João-Joana”, poema em forma de cordel escrito por Carlos Drummond de Andrade.
Se a parte instrumental vai contar com o luxo da Orquestra Sinfônica, a vocal não será menos luxuosa. Elba Ramalho, Alceu Valença e Geraldo Azevedo, três típicos representantes da cultura popular nordestina, vão dividir o palco com o paulista Sérgio Ricardo na intepretação do texto do mineiro Drummond.
“João-Joana”
“Estória de João Joana” conta a saga real de uma menina criada como menino pela mãe para ter alguma chance de viver com dignidade no interior do Brasil dos anos 60.
Musicado por Sérgio Ricardo, o cordel transformou-se em uma sinfonia brasileira, através também da primorosa orquestração de Radamés Gnatalli, ampliando o alcance de sua voz e propondo uma reflexão atenciosa sobre a situação social da mulher em nosso país.
O cordel virou disco

Definido na capa como cordel musical de Carlos Drummond de Andrade e Sérgio Ricardo, o disco “Estória de João-Joana” vai ganhar reedição em junho de 2012, mês em que o cantor e compositor paulista faz 80 anos. Gravado e lançado de forma independente por Sérgio Ricardo em 1985, Estória de João-Joana volta ao catálogo em reedição produzida por Marcelo Fróes para o selo próprio Discobertas sob licença do próprio Sérgio Ricardo. O disco registra a trilha sonora do balé idealizado por Ricardo a partir da leitura do cordel de Drummond. (Fonte: blognotasmusicais.blogspot.com)
Serviço
“Estória de João Joana” é um evento gratuito em comemoração ao Dia Internacional da Mulher
Com: Elba Ramalho, Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Marina Lutfi e João Gurgel
Participação especial: Sérgio Ricardo
Orquestração: Radamés Gnatalli
Regência: Cláudio Cohen
Local: Teatro Nacional de Brasília
Dias 6, 7 e 8 março de 2012 - 20h
Tel: (61) 3325-6239 e (61) 3325-6256, das 12h às 20h.
Os ingressos só poderão ser retirados no dia do evento. A distribuição será a partir das 12h na bilheteria do teatro.
Censura Livre
Capacidade 1.307 lugares
Duração 1h10
Ficha técnica
Direção Geral:
Bete Calligaris e Ivan Fortes
Direção de Produção:
Wladimir Duarte
Banda:
Lui Coimbra (viola, violão, charango)
Bororó (baixo)
Jurim Moreira (bateria)
Marçalzinho (percussão)
A Estória De João-joana

Carlos Drummond de Andrade

Meu irmão, o sucedido
em Lajes do Caldeirão
é caso de muito ensino, 
merecedor de atenção. 
Por isso é que me apresento
fazendo esta relação.
Vivia em dito arraial
do país das Alagoas
um rapaz chamado João
cuja força era das boas
pra sujigar burro bravo,
tigres, onças e leoas.
João, lhe deram este nome
não foi de letra em cartório
pois sua mãe e seu pai
viviam de peditório.
Gente assim do miserê
nunca soube o que é casório.
Ficou sendo João, pois esse 
é nome de qualquer um.
Não carece excogitar,
pedir a doutor nenhum,
que a sentença vem do Céu,
não de lá do Barzabum.
De pequeno ficou órfão,
criado por seus dois manos.
Foi logo para o trabalho
com muitos outros fulanos
e seu muque, sem mentira,
era o de três muçulmanos.
Na enxada, quem que vencia
aquele tico de gente.
No boteco, se ele entrava
pra bochechar aguardente,
o saudavam com respeito
Deus lhe salve, meu parente.
João moço não enjeitava
parada com sertanejo.
Podiam brincar com ele
sem carregar no gracejo.
Dizia que homem covarde
não é cabra, é percevejo.
Um dia de calor desses
que tacam fogo no agreste,
João suava que suava
sem despir a sua veste.
Companheiro, essa camisa
não é coisa que moleste?
lhe perguntou um amigo
que estava de peito nu.
E João se calado estava
nem deu pio de nambu.
Ninguém nunca viu seu pêlo,
nem por trás do murundu.
João era muito avexado
na hora de tomar banho.
Punha tranca no barraco
fugindo a qualquer estranho.
em Lajes nenhum varão
tinha recato tamanho.
João nas últimas semanas
entrou a sofrer de inchaço.
Mesmo assim arranca toco
sem se carpir de cansaço.
Um dia, não güenta mais,
exclama: O que é que eu faço?
Os manos vendo naquilo
coisa mei' desimportante,
logo receitam de araque
meizinha sem variante
para qualquer macacoa:
Carece tomar purgante.
João entrou no purgativo
louco de dor e de medo
se entorcendo e contorcendo
na solidão do arvoredo
pois ele em sua aflição
lá se escondera bem cedo.
O gemido que exalava
do peito de João sozinho
alertou os seus dois manos
que foram ver de mansinho
como é que aquele bravo
se tornara tão fraquinho.
No chão de terra, essa terra
que a todos nós vai comer, 
chorava uma criancinha
acabada de nascer, 
E João, de peito desnudo,
acarinhava este ser.
Aquela cena imprevista
causou a maior surpresa.
O que tanto se ocultara
se mostrava sem defesa. 
João deixara de ser João
por força da natureza.
A mulher surgia nele
ao mesmo tempo que o filho,
tal qual se brotassem junto
a espiga com o pé de milho,
ou como bala que estoura
sem se puxar o gatilho.
Se os manos levaram susto,
até eu, que apenas conto.
E o povo todo, assuntando
a estória ponto por ponto, 
ficou em breve inteirado
do que aí vai sem desconto.
Nem menino nem menina
era João quando nasceu.
A mãe, sem saber ao certo,
o nome de João lhe deu,
dizendo: Vai vestir calça
e não saia que nem eu.
A proporção que crescia
feito animal na campina,
em João foi-se acentuando
a condição feminina,
mas ele jamais quis ser 
tratado feito menina.
Pois nesse triste povoado
e cem léguas ao redor,
ser homem não é vantagem
mas ser mulher é pior.
Quem vê claro já conclui:
de dois males o menor.
Homem é grão de poeira
na estrada sem horizonte;
mulher nem chega a ser isso
ante as ruindades da vida,
de altura maior que um monte.
A sorte, se presenteia
a todos doença e fome,
para as mulheres capricha
num privilégio sem nome.
Colhe miséria maior 
e diz à coitada: Tome.
É forma de escravidão
a infinita pobreza,
mas duas vezes escrava
é a mulher com certeza,
pois escrava de um escravo
pode haver maior dureza?
Por isso aquela mocinha
fez tudo para iludir
aos outros e ao seu destino.
Mas rola não é tapir
e chega lá um momento 
da natureza explodir.
João vira Joana: acontecem
dessas coisas sem preceito.
No seu colo está Joãozinho
mamando leite de peito.
Pelo menos esse aqui
de ser homem tem direito.
De ser homem: de escolher
o seu próprio sofrimento
e de escrever com peixeira
a lei do seu mandamento
quando à falta de outra lei
ou eu fujo ou arrebento.
Joana desiste de tudo
que ganhara por mentira.
Sabe que agora lhe resta
apenas do saco a embira.
E nem mesmo lhe aproveita
esta minha pobre lira.
Saibam quantos deste caso
houverem ciência, que a vida
não anda, em favor e graça,
igualmente repartida,
e que dor ensombra a falta
de amor, de paz e comida.
Meu amigo, meu irmão,
eu nada te peço a ti
senão me ouvir com paciência
de Minas ao Piauí;
tendo contado meu conto,
adeus, me despeço aqui.

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